Música
Uakti – Aguas da Amazônia
21/08/10
por THALES AFFONSO
O nome “Uakti” deriva de uma lenda amazônica sobre o herói dos índios “Tukanos”, que vivem às margens de rios como o Tiquié e o rio Negro. Coincidência ou não, Philip Glass escolheu o “Uakti” para interpretar “Águas da Amazônia”. As composições, encomendadas pelo Grupo Corpo (importante grupo de dança de Belo Horizonte), foram entregues a Marco Antônio Guimarães, que as adaptou ao instrumental do “Uakti”.
Guimarães é fundador, principal arranjador e compositor do grupo mineiro. Além disso, ele próprio constrói os instrumentos, indissociáveis à identidade do “Uakti”. São instrumentos não convencionais, produzidos a partir de materiais do cotidiano, como tubos de PVC, madeira, metais, garrafas plásticas, vidro, entre outros.
A riqueza timbrística dos instrumentos originais, somada ao esmero dos arranjos e à dimensão minimalista da composição de Glass, fazem de “Águas da Amazônia” um álbum excepcional, quase surreal. As melodias fluem como águas calmas de um rio (nove das dez faixas levam o nome de um rio da Amazônia). Na faixa “Japurá River”, por exemplo, os timbres parecem sonorizar um sereno sonho. O trabalho mais recente do “Uakti” foi a composição da trilha sonora para o filme “Ensaio Sobre a Cegueira”, dirigido por Fernando Meireles.
Pata de Elefante – Na Cidade
18/08/10
por THALES AFFONSO
Música instrumental acessível e rock de qualidade são duas características no mínimo incomuns em uma mesma banda. Não para a Pata de Elefante, formada em 2002, que lançou o primeiro álbum, homônimo, em 2004 e, em 2007, “Um Olho no Fósforo, Outro na Fagulha”.
Apesar da tradicional formação em power trio (guitarra, baixo e bateria), a banda gaúcha se diferencia pelo fato de dois dos músicos se revezarem entre os instrumentos de corda. A primeira faixa do novo disco, lançado este ano, começa com uma levada funk e a distorção característica da banda.
Como o próprio nome indica, “Na Cidade” é um disco urbano e dançante, mesmo nos momentos mais introspectivos, como na calma balada “Um Pouco Antes de Dormir”. Faixas como “Squirt Surf”, “Pesadelo no Bambus”, “Sai da Frente” e “À Luz de Velas” mostram claramente a influência da surf music, geralmente aliada à consistência do rock’n roll. “Na Cidade” pode ser baixado gratuitamente no site da Trama Virtual.
John McLaughlin – Floating Point
15/08/10
por THALES AFFONSO
A fusão entre o jazz e a música indiana, que são duas grandes influências consolidadas ao longo da carreira de John McLaughlin, define o espectro sonoro de “Floating Point”. O desenvolvimento do jazz-fusion foi testemunhado pelo lendário guitarrista inglês, que participou deste processo ao lado de Miles Davis. McLaughlin atuou ao lado de outros grandes nomes do jazz, como Dave Holland, Charlie Haden, Chick Corea, Airto Moreira, Stanley Clarke, entre muitos outros.
Para John, que é adepto ao hinduísmo, a cultura indiana está presente não apenas na música. Em 1971, fundou a “Mahavishnu Orchestra” – o que já demonstrava seu interesse pela cultura hindu. Gravado na Índia, com a participação de grandes músicos daquele país, “Floating Point” une timbres, fraseados e concepções desses dois universos musicais. Um exemplo é a faixa “Raju”, em que as melodias do sitar elétrico se mesclam ao jazz-fusion, com bateria e baixo frenéticos, de maneira surpreendente. Muito virtuosismo e uma concepção musical extremamente madura fazem deste álbum um dos melhores da carreira de McLaughlin.
Corinne Bailey Rae – The Sea
12/08/10
por THALES AFFONSO
O recém-lançado álbum da cantora inglesa reafirma a qualidade de seu trabalho. Com um timbre suave e característico, Corinne demonstra ter amadurecido, utilizando ainda melhor a extensão de sua voz. Sua interpretação também está mais introspectiva e as letras mais profundas, fato que pode ser atribuído à morte de seu marido durante as gravações.
A melodia tocante do primeiro single, que se chama “I’d Do It All Again” (Faria tudo de novo), alterna-se com baladas mais movidas, que conferem um clima mais leve. Com influências do soul e do jazz, “The Sea” traz uma instrumentação que se adequa às melodias leves e privilegia a voz da cantora.
Pena Branca – Cantar Caipira
02/08/10
por: THALES AFFONSO
José Ramiro Sobrinho, o Pena Branca, ficou conhecido no Brasil e no mundo pela dupla formada ao lado de seu irmão Ranulfo Ramiro da Silva, o Xavantinho. A autenticidade artística e a simplicidade caipira, assim como o caráter rústico das vozes, consolidaram a dupla como uma das grandes referências da música de raiz.
Em 1980, a dupla lançou o primeiro LP, Velha Morada (Warner), com canções que passaram a ser marca registrada, como “Cio Da Terra” (Milton Nascimento e Chico Buarque). Foram vários os álbuns lançados pela dupla Pena Branca e Xavantinho. O premiado “Ao Vivo em Tatuí”, com Renato Teixeira, recebeu o “Prêmio Sharp” de melhor disco e o “Prêmio APCA”.
Em 1999, após a morte de Xavantinho, Pena Branca seguiu carreira solo. Em 2001, recebeu o Grammy latino de Melhor Disco Sertanejo, com o álbum “Semente Caipira”. O último álbum lançado pelo artista chama-se “Cantar Caipira”, de 2008. Pena Branca morreu em fevereiro deste ano e, além da saudade, vai deixar a certeza de que não se fazem mais duplas sertanejas como antigamente.
Paula Morelenbaum e SWR Big Band – Bossarenova
28/07/10
por: THALES AFFONSO
Com produção e arranjos de Ralf Schmid, “Bossarenova” consegue renovar clássicos da Bossa Nova, preservando a essência das canções e do gênero. O álbum, lançado em março, é um trabalho surpreendente e condizente com a experiência artística de Paula Morelenbaum: filha do maestro e violoncelista Jaques Morelenbaum, que cantou ao lado de Tom Jobim por dez anos, fazendo turnês pelo Brasil e por todo o mundo.
A inusitada fusão entre a densidade de uma Big Band e a leveza da Bossa Nova teve um resultado excepcional. O projeto foi idealizado por Schmid, ao lado da “SWR Big Band”, de Stuttgart (Alemanha) – cidade onde parte do álbum foi gravado. A outra parte das gravações foi realizada no Rio de Janeiro.
Além de clássicos da Bossa Nova, como “Águas de Março”, “Chovendo na Roseira” e “Tarde em Itapoã”, o álbum traz releituras de composições eruditas de Robert Schumann e Heitor Villa-Lobos, além de uma versão da lendária “Blackbird”, de Lennon & McCartney.
SEU JORGE
23/07/10
Desde o final de 2009, revistas e sites especulam sobre o novo álbum do Seu Jorge. Mas na era da internet, o tempo entre especular e fazer download virou faísca e, em fevereiro, pipocou na rede o sucessor de “América Brasil – O Disco”, de 2008. Seu Jorge se juntou aos músicos Pupilo e Lúcio Maia, da Nação Zumbi, e deu mais uma prova à sua aversão ao comodismo. Depois de interpretar Michael Jackson num controverso show para o canal Multishow, Seu Jorge e companhia apostam alto em um disco cheio de experimentalismos, com releituras de músicas de Baden Powell e Vinícius de Morais (Samba do Veloso), Jorge Ben (Errare Humanum Est…), Nelson do Cavaquinho (Juízo Final), o próprio Michael Jackson (Rock with you) e chegando ao seminal grupo alemão de música eletrônica Kraftwerk (The Model). O disco pode causar algum espanto para quem conhece o sambista pop e de canções docemente embriagantes (como as da parceria com Ana Carolina), mas comprova que Seu Jorge é um dos maiores músicos do Brasil na atualidade.
ALICIA KEYS – THE ELEMENT OF FREEDOM
11/07/10
Alicia Keys é uma artista completa. Canta, compõe, toca e produz com competência de sobra. Sucessor de As I Am, de 2007, The Element of Freedom mostra que Alicia Keys continua a ter aversão a padronizações sonoras – foi assim que ela ganhou 12 Grammys desde sua estréia, com Songs In A Minor, em 2001. The Element of Freedom caminha pelas estradas do soul, jazz, black, pop e ainda um pouco de funk. Entre as músicas mais bacanas do disco, lançando em dezembro de 2009, está “Put It In a Love Song”, que tem participação especial de Beyonce, “Try Sleeping With A Broken Heart” (o título entrega a balada romântica) e “Wait Till You See Me Smile”
CHARLOTTE GAINSBOURG – IRM
07/07/10
Filha de Serge Gainsbourg, um dos maiores poetas e músicos da França, a moça estreou nos microfones em 1984, aos 13 anos, com uma participação na música do pai “Lemon incest”. IRM é a segunda experiência musical de Charlotte, o primeiro álbum é 5:55, de 2006. IRM (um título inspirado no som dos aparelhos médicos de ressonância) é superior a 5:55 porque teve o norte-americano Beck como mentor do álbum, que escreveu e compôs todas as melodias, com exceção de Le chat du café des artistes. Beck otimizou o som previsível de uma boa cantora-atriz com algum charme em melodias folk sofisticadas e rock contemporâneo. O disco é resultado de um trauma: Charlotte sofreu uma cirurgia no cérebro como conseqüência de um acidente de ski e a morte é tema recorrente nas canções. Mesmo um tanto quanto tenso e sombrio, IRM mostra uma Charlotte Gainsbourg amadurecida e abençoada pelas mãos de Beck. Charlotte estrelou recentemente o polêmico filme Anticristo, do diretor dinamarquês Lars Von Trier.
Um inusitado projeto de quatro músicos: Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra, Taciana Barros e Antonio Pinto. Eles reuniram seus filhos num estúdio e gravam um disco feito para crianças e principalmente por elas. Intitulado de “Música Psicodélica para Crianças”, as letras são inspiradas nos grandes problemas existenciais e do cotidiano da criançada, como chupeta, lagartixa, sapo-boi e pequenas paixonites. Inteligente e divertido, cada faixa foi gravada num estilo musical diferente: há rockabilly, punk, psicodelia, samba, bossa e forró. No Myspace do projeto (myspace.com/pequenocidadao) é possível ouvir algumas músicas e assistir vídeos das gravações e videoclipes.